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No mundo da fantasia infantil
Brincar de reinventar o que acontece no dia-a-dia é tudo
o que as crianças desejam. Nem os adultos, às vezes,
se dão conta, mas é brincando desta forma que elas
aprendem a viver: desenvolvem o intelecto esbanjando criatividade;
trabalham o emocional realizando desejos, ensaiando sensações
e experimentando certos traços de agressividade; e se familiarizam
com a vida social criando historinhas que se passam na escola, no
supermercado, no consultório médico, na rua e mesmo
em casa.
Daniela Ruiz, psicóloga em São Paulo,
destaca a importância da cumplicidade dos pais com as fantasias
infantis: "o pai e a mãe não devem reprimir a
imaginação dos filhos. Se a criança tentar
envolvê-los em suas histórias vale a pena participar:
basta deixar fluir a meninice que há dentro de cada um".
"É nessa hora, também, que os
pais devem aproveitar e oferecer pistas sobre a diferença
entre o real e o imaginário. Se seu filho fantasia que o
copo está voando, por exemplo, você explica a ele que
aquele copinho voa porque naquele momento vocês estão
brincando, mas que, na realidade, copos não voam.",
complementa Daniela.
Se a situação que a criança
estiver fantasiando não agradar aos pais, uma boa conversa
dará chance ao garoto de esclarecer os motivos que despertaram
tal comportamento.
Tudo começa no berço
Se você ainda não notou que a imaginação
do seu bebê anda solta, basta ficar atento aos seus movimentos
e expressões faciais. Algumas teorias de psicologia infantil
afirmam que, desde os primeiros dias de vida, os bebês fantasiam,
embora sua atividade mental seja muito primitiva.
Na verdade, os temas com os quais a criança
"sonha" mudam de acordo com o seu desenvolvimento e com
o universo em que vive. É a partir de estímulos recebidos
dos pais, avós, tios e amiguinhos que ela começa a
desenvolver a criatividade e a imaginação.
A partir dos onze meses, os sinais das fantasias
ficam mais evidentes, pois o pequeno já é capaz de
coordenar gestos, engatinhar e segurar objetos que farão
parte das suas brincadeiras imaginárias. Observe: quando
o bebê pega um copo vazio, normalmente o leva à boca
e finge estar bebendo algo; outra cena comum é a menina colocar
a mamadeira na boquinha da boneca, como a mãe faz com ela.
Na fase em que começa a ensaiar as primeiras
palavras (entre um e dois anos, dependendo do bebê) a criança
amplia a capacidade de expressar a sua imaginação
por meio da linguagem. Com a participação mais efetiva
dos pais, que em geral aplaudem as gracinhas dos pequenos, sentem-se
estimulados a soltar o verbo e a continuar brincando.
Ana Claudia de Miranda é mãe de Rafael,
hoje com quatro anos. Quando o garoto tinha dois anos, brincava
de ser vendedor de doces e salgados sempre que entrava no carro.
Ela conta que o menino abria o porta-luvas que tem dois suportes
para copos e fingia que num deles estavam os doces e no outro os
salgados. E começava a pedir: "compe um doce, compe
um salgadinho também". Repetia a brincadeira várias
vezes, rindo e se divertindo com a reação dos outros.
Como
a imaginação evolui
Até os três anos
Nessa fase as crianças brincam com situações
que fazem parte do seu dia-a-dia. Conversar e dar vida aos seres
inanimados são rotina, pois eles acreditam que os objetos
também pensam, têm sentimentos e desejos: a colher
vira um aviãozinho na hora da refeição; a boneca
vai para o bercinho "nanar"; o ursinho de pelúcia
"passeia" e a comida na panelinha é de verdade.
Isso é tão natural que a própria
mãe é quem mais estimula quando diz que "o pezinho
não gosta de ficar sujo" ou que "a barriguinha
está com fome". A criança começa a ter
noção de que os objetos não têm vida
própria com o tempo, a experiência e as informações
recebidas dos pais.
Dos três aos cinco anos
A partir dos três anos, as fantasias ganham contexto e tomam
ares de espetáculo: as crianças montam o cenário
com brinquedos que passam a ter a função dos personagens
necessários ao desenrolar de suas histórias; elas
distribuem papéis e usam situações vividas
por outras pessoas para preencher o mundo do faz-de-conta.
Dos seis aos oito anos
Quando completam seis ou sete anos, as fantasias cumprem novas funções:
alívio, vingança e desejo de realizações,
com a participação de heróis, bandidos e mocinhos.
A imaginação flui conforme as situações
que a criança está vivendo e o faz-de-conta ganha
enredos mais lógicos e coerentes, embora os personagens criados
sejam fantásticos, poderosos e até mesmo invencíveis.
Há crianças que fantasiam ser o herói,
capaz de destruir as forças do mal e realizar grandes conquistas;
outras preferem trazer o herói para perto de si, como se
fosse um amigo.
O mundo irreal também ensina
É durante as atividades imaginativas que a criança
consegue enfrentar certos problemas e resolver angústias
que não saberia sequer explicar verbalmente. Brincando, os
pequenos também aprendem a tolerar, a aceitar, a ceder; e
até a exigir, o que na vida real nem sempre é tão
simples.
Não há regras quando o assunto é
comportamento, pois cada criança expressa o que sente de
forma particular e de acordo com o momento. As situações
e histórias inventadas também dependem do humor, da
disposição e da criatividade que ela vive naquele
dia.
Repare o comportamento de sua filha quando ela está
brincando de casinha: se faz o papel da mãe, dá ordens
com voz firme, mas dificilmente grita. Já quando inverte
os papéis, torna-se uma "filha" obediente e educada.
A brincadeira acontece na mais perfeita calmaria; nem mesmo quando
a mamãe de mentirinha manda arrumar a bagunça ela
se irrita!
Os meninos, às vezes, também ficam
mais compreensivos quando estão fantasiando. Observe como
eles respeitam a hierarquia dentro da história: se o cenário
fictício é a escola, o aluno obedece ao professor
com satisfação e demonstra total interesse em aprender.
O mestre, por sua vez, explica a lição com seriedade
e delicadeza.
No faz-de-conta, a criança elabora alguns
temores: finge ser o médico e a boneca - ou o amiguinho -,
o paciente. Ouça o que o minidoutor diz enquanto "aplica"
a injeção: "não chore, vai doer só
a picadinha e depois passa". Isso funciona como se a criança
estivesse se convencendo de que não é preciso ter
medo de médico nem de injeções.
Brincar, portanto, é preciso! Esse é
o melhor ensaio para o futuro dos pequenos. Muitas vezes a vida
lhes pedirá que representem papéis semelhantes aos
que estavam habituados a desempenhar na infância, mas com
as conseqüências da vida adulta e real.
Autora: Daniela
Ruiz de Mendonça
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